
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/echo.15917
O estudo “Increased preload and echocardiographic assessment of diastolic function”, publicado em 2024 por Taraldsen et al., investigou como o aumento da pré-carga (volume de enchimento do ventrículo esquerdo) modifica os parâmetros ecocardiográficos da função diastólica, especialmente a relação E/e’, em indivíduos normais e em pacientes com doença cardíaca.
Objetivo
Os autores partiram da hipótese de que o aumento da pré-carga elevaria a relação E/e’, mas que esse efeito poderia ser diferente em pessoas com pressão de enchimento ventricular esquerda (LVFP) normal e elevada.
Como o estudo foi realizado
Foram incluídos 129 participantes, provenientes de dois grupos:
- 82 indivíduos receberam infusão de 2 litros de solução salina para aumentar a pré-carga.
- 47 pacientes em hemodiálise foram estudados antes e depois da diálise, aproveitando a grande variação do volume intravascular.
O ecocardiograma foi realizado imediatamente antes e depois da alteração da pré-carga. Os pacientes foram classificados em:
- Pressão de enchimento normal (98 pacientes)
- Pressão de enchimento elevada (31 pacientes)
A classificação foi baseada principalmente nos valores de E/e’.
Principais resultados
1. Pacientes com pressão de enchimento normal
Quando o volume aumentou:
- a velocidade E aumentou;
- a velocidade e’ também aumentou;
- como ambas aumentaram de forma semelhante, o E/e’ praticamente não mudou.
Resultado:
➡️ O E/e’ permaneceu estável, apesar do aumento da pré-carga.
2. Pacientes com pressão de enchimento elevada
Neste grupo ocorreu algo completamente diferente.
Após aumento da pré-carga:
- a velocidade E aumentou bastante;
- a velocidade e’ praticamente não mudou;
- consequentemente, o E/e’ aumentou significativamente.
Os autores chamaram atenção para um e’ “fixo”, que não consegue aumentar diante do maior enchimento ventricular. Isso sugere perda da reserva de relaxamento miocárdico.
Interpretação fisiológica
Este talvez seja o aspecto mais importante do artigo.
Em um coração normal:
- quando chega mais sangue ao ventrículo,
- ocorre maior estiramento das fibras,
- aumenta o recolhimento elástico (“elastic recoil”),
- o relaxamento torna-se mais vigoroso,
- portanto o e’ aumenta.
Como o e’ aumenta junto com a onda E, o E/e’ permanece praticamente constante.
Já em um ventrículo rígido ou com disfunção diastólica:
- o relaxamento está comprometido;
- o aumento da pré-carga eleva apenas a velocidade E;
- o e’ permanece praticamente imóvel;
- assim o E/e’ aumenta, refletindo aumento da pressão de enchimento.
Outro achado importante
Os indivíduos normais conseguiram aumentar o:
- volume diastólico final (EDV);
- volume sistólico;
- débito cardíaco.
Já os pacientes com pressão de enchimento elevada praticamente não conseguiram aumentar o volume diastólico final, sugerindo um ventrículo menos complacente e incapaz de acomodar mais volume.
Implicações clínicas
Os autores sugerem que:
O E/e’ NÃO é um bom marcador para acompanhar mudanças de hidratação em indivíduos normais.
Em pessoas com pressão de enchimento normal, estar mais hidratado ou menos hidratado interfere pouco na relação E/e’.
Por outro lado:
Em pacientes com pressão de enchimento elevada
o E/e’ parece acompanhar as alterações da pré-carga e pode ser útil para monitorar congestão.
Conclusão dos autores
O aumento da pré-carga:
- não altera significativamente o E/e’ em indivíduos com pressão de enchimento normal;
- aumenta significativamente o E/e’ em indivíduos com pressão de enchimento elevada.
Além disso:
- um e’ fixo sugere relaxamento ventricular gravemente comprometido;
- um e’ dinâmico sugere relaxamento preservado e pressões de enchimento normais.
Comentário crítico
Este estudo é particularmente relevante para a ecocardiografia de estresse e para a avaliação da disfunção diastólica ao exercício. Ele reforça que o comportamento dinâmico do e’ pode ser mais informativo do que um valor isolado. Em indivíduos normais, o e’ aumenta com o incremento da pré-carga, preservando a relação E/e’. Já nos pacientes com disfunção diastólica e pressões de enchimento elevadas, o e’ perde essa capacidade adaptativa (“reserva de relaxamento”), fazendo com que o E/e’ aumente.
Esse conceito ajuda a explicar por que alguns pacientes desenvolvem elevação do E/e’ apenas durante exercício ou outras situações de aumento da pré-carga, sendo um fundamento fisiológico importante para o ecocardiograma sob estresse na investigação da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp).
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